Custos para arrematar imóvel em leilão: guia completo
Arrematar um imóvel em leilão custa bem mais do que o lance. Somando comissão do leiloeiro, ITBI, registro, dívidas previstas no edital, desocupação, reforma e despesas de manutenção, os custos extras costumam representar uma fatia relevante do valor arrematado. No exemplo ilustrativo deste artigo, com lance de R$ 300 mil em São Paulo, eles chegam a cerca de 30% do lance.
- Em regra, o comprador paga 5% de comissão ao leiloeiro sobre o valor arrematado, segundo o Decreto 21.981/1932.
- Na cidade de São Paulo, o ITBI é de 3%. Em leilão, a base de cálculo é o valor da arrematação, salvo arbitramento pela Prefeitura.
- Dívidas de IPTU e condomínio dependem do edital e do tipo de leilão. Leia o edital antes de dar o lance.
- Desocupação, reforma e custos de carregamento (condomínio, IPTU, contas) costumam ser os itens mais subestimados.
- Na revenda, entram corretagem e imposto de renda sobre o ganho de capital, com alíquota de 15% até R$ 5 milhões de ganho para pessoa física.
Por que o lance não é o preço final?
O lance paga apenas o imóvel. Todo o resto sai do bolso do arrematante. Parte dos custos é fixa e previsível, como comissão e ITBI. Outra parte depende do estado do imóvel, da ocupação e do que o edital transfere ao comprador.
Quem calcula só o lance tende a errar o preço máximo. O desconto em relação ao valor de mercado precisa cobrir todos esses custos e ainda deixar margem.
Quanto é a comissão do leiloeiro e quem paga?
O Decreto 21.981/1932 regula a profissão de leiloeiro. O art. 24 prevê que a comissão com quem contrata o leilão (o comitente) pode ser combinada por escrito. Sem acordo, a taxa é de 3% para imóveis. O parágrafo único vai além: os compradores pagarão obrigatoriamente 5% sobre quaisquer bens arrematados[1].
Na prática, o arrematante deve contar com 5% sobre o valor do lance. Em leilões judiciais, a comissão é fixada pelo juiz e aparece no edital. Em 2023, a Quarta Turma do STJ reafirmou que essa comissão deve ser de, no mínimo, 5% sobre o valor da arrematação (RMS 65.084)[2].
Atenção: vendas diretas e licitações de bancos podem ter regras próprias. O edital de cada venda é o que vale.
Como funciona o ITBI na arrematação?
O ITBI é o imposto municipal sobre a transmissão do imóvel. Cada município fixa sua alíquota e suas regras. Na cidade de São Paulo, a alíquota geral é de 3%[3].
Qual é a base de cálculo em leilão?
Segundo a Prefeitura de São Paulo, em leilões e hastas públicas a base de cálculo é o valor pelo qual o bem foi arrematado. A exceção é quando outro valor é apurado por arbitramento. A regra vale para arrematações formalizadas a partir de 30/03/2023[3].
O entendimento está alinhado ao Tema 1.113 do STJ (REsp 1.937.821), julgado em 2022. O tribunal fixou que a base do ITBI é o valor do imóvel em condições normais de mercado, sem vínculo com a base do IPTU. Também definiu que o valor declarado pelo contribuinte se presume correto e só pode ser contestado pelo fisco em processo administrativo próprio. E vedou que o município fixe a base de forma unilateral, por valor de referência[4].
Em outros municípios, confirme alíquota, base e prazo de pagamento na legislação local.
Quanto custa registrar o imóvel?
Depois de pagar o ITBI, o arrematante precisa registrar a transmissão na matrícula do imóvel. No leilão judicial, o título é a carta de arrematação. No leilão extrajudicial, em geral, é a escritura pública ou o contrato previsto no edital.
Os valores seguem a tabela de emolumentos de cada estado e crescem conforme o valor do ato. Em São Paulo, a tabela de 2026 entrou em vigor em 8 de janeiro de 2026[5]. Peça um orçamento ao cartório antes do leilão. Some escritura (quando houver), registro e certidões.
Quem paga as dívidas de IPTU e condomínio?
Depende do tipo de leilão e do edital. Não existe resposta única.
- Tributos (IPTU) em leilão judicial: no Tema 1.134, o STJ decidiu que é inválida a cláusula de edital que atribui ao arrematante os débitos tributários anteriores à alienação. A tese vale para leilões com edital publicado após a ata do julgamento, de outubro de 2024[6].
- Condomínio: a dívida acompanha o imóvel. O edital precisa ser lido com cuidado para saber o que será quitado com o preço e o que fica com o comprador.
- Leilões extrajudiciais e vendas de bancos: o edital costuma dizer expressamente quais débitos ficam com o arrematante. Muitas vezes, todos.
Antes do lance, peça a certidão de débitos de IPTU na prefeitura e uma declaração de débitos ao condomínio.
Quanto custa desocupar um imóvel arrematado?
Se o imóvel estiver ocupado, o custo principal é o advogado. Pode haver também custas judiciais e, às vezes, um acordo em dinheiro com o ocupante.
Em imóveis retomados por alienação fiduciária, o art. 30 da Lei 9.514/1997 dá ao adquirente em leilão público o direito à reintegração de posse, concedida liminarmente, para desocupação em 60 dias, desde que comprovada a consolidação da propriedade[7]. Na prática, o prazo total depende do andamento do processo. Enquanto isso, o imóvel gera despesas e não gera renda.
Quanto reservar para reforma?
Muitos imóveis de leilão não podem ser visitados por dentro. O orçamento de reforma, então, é feito com incerteza. Uma vistoria externa, fotos do edital e o histórico do prédio ajudam, mas não eliminam o risco.
Trabalhe com uma reserva de contingência sobre o orçamento estimado. Instalações elétricas e hidráulicas, pisos e esquadrias são os itens que mais pesam.
O que são custos de carregamento?
São as despesas de manter o imóvel entre a arrematação e a venda ou locação. Incluem condomínio, IPTU, luz, água e gás durante a obra, seguro e deslocamentos. Parecem pequenas por mês. Em 12 meses, somam valores relevantes. Estime o prazo total com realismo: registro, desocupação, reforma e venda.
Exemplo: quanto custa arrematar um imóvel de R$ 300 mil em São Paulo?
Exemplo ilustrativo. Comissão e ITBI seguem as regras citadas acima. Os demais valores são hipóteses para um apartamento na capital paulista e mudam muito de caso a caso.
| Item | Premissa | Valor (R$) |
|---|---|---|
| Lance (arrematação) | Valor arrematado | 300.000 |
| Comissão do leiloeiro | 5% do lance | 15.000 |
| ITBI (São Paulo) | 3% sobre o valor arrematado | 9.000 |
| Escritura/carta e registro | Estimativa; consultar cartório | 5.000 |
| Dívidas de IPTU e condomínio | Hipótese, conforme edital | 10.000 |
| Desocupação (advogado e custas) | Hipótese | 8.000 |
| Reforma | Hipótese | 30.000 |
| Carregamento por 12 meses | Condomínio, IPTU e contas: R$ 1.050/mês | 12.600 |
| Custos além do lance | 29,9% do lance | 89.600 |
| Total investido | Lance + custos | 389.600 |
Neste exemplo, o imóvel precisa valer bem mais que R$ 389,6 mil para a operação fazer sentido. E ainda faltam os custos de saída, descritos a seguir.
Quais custos aparecem na hora de vender?
Corretagem
Se a venda for feita por imobiliária ou corretor, há comissão sobre o preço de venda. O percentual é negociado caso a caso.
Imposto de renda sobre ganho de capital
Ganho de capital é a diferença positiva entre o valor de venda e o custo de aquisição. Para pessoa física, a Receita Federal aplica alíquotas progressivas[8]:
- 15% sobre ganhos até R$ 5 milhões;
- 17,5% sobre a parcela entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões;
- 20% sobre a parcela entre R$ 10 milhões e R$ 30 milhões;
- 22,5% sobre a parcela acima de R$ 30 milhões.
Guarde todos os comprovantes de despesas com o imóvel. Confirme com seu contador quais podem compor o custo de aquisição.
Existem isenções?
Sim, e duas são as mais comuns[9]:
- Imóvel único até R$ 440 mil: isenção na venda do único imóvel da pessoa, por até R$ 440.000, se não houve outra venda de imóvel nos cinco anos anteriores.
- Regra dos 180 dias: isenção do ganho na venda de imóvel residencial quando o valor é aplicado na compra de outro imóvel residencial no país em até 180 dias. Se só parte do valor for reaplicada, a isenção é proporcional. O benefício só pode ser usado uma vez a cada cinco anos. A regra vem da Lei 11.196/2005[10].
Quem compra imóveis de leilão para revenda com frequência raramente se enquadra nessas isenções. Planeje o imposto desde o início.
Um caso real: quanto os custos pesaram em Paratibe?
Em uma operação acompanhada pela Leilões Arena, um apartamento em Paratibe (João Pessoa/PB) foi comprado por R$ 65.270 na venda direta da Caixa, 51,6% abaixo da avaliação de R$ 135.000. Os impostos e taxas da compra, as dívidas do imóvel e a reforma somaram R$ 32.733, cerca de 50,2% do valor pago. O total investido foi de R$ 98.003.
O imóvel foi vendido por R$ 140.000 em 12 meses. Imposto de renda e corretagem somaram R$ 14.699. O lucro líquido foi de R$ 27.298, cerca de 28% sobre o valor investido.
Resultado de uma operação específica, não é promessa de rentabilidade.
O caso mostra um ponto importante: em imóveis de menor valor, custos como reforma e dívidas pesam proporcionalmente mais sobre o valor pago. E, como a compra foi na venda direta da Caixa, não houve comissão de leiloeiro.
Como a Leilões Arena ajuda
Antes do lance, analisamos o edital, a matrícula, os débitos e o estado do imóvel, e montamos a planilha de custos completa de cada operação. A análise combina a visão contábil e tributária de Ana Maria João Feliu, economista e contadora, com a avaliação técnica de obra de Eduardo Gonçalez, engenheiro civil. O objetivo é definir um lance máximo com base em números, não em expectativa.
Perguntas frequentes
Quanto custa arrematar um imóvel em leilão além do lance?
Depende do imóvel e do edital. Some 5% de comissão do leiloeiro, ITBI (3% em São Paulo), cartório, dívidas previstas no edital, desocupação, reforma e despesas mensais até a venda. No exemplo ilustrativo deste artigo, os custos chegaram a cerca de 30% do lance. Em imóveis baratos e degradados, o percentual pode ser bem maior.
Quem paga a comissão do leiloeiro?
O arrematante. O parágrafo único do art. 24 do Decreto 21.981/1932 determina que os compradores pagam 5% sobre os bens arrematados. Em leilões judiciais, o juiz fixa a comissão, e o STJ entende que ela deve ser de no mínimo 5%. Vendas diretas de bancos podem seguir regras próprias, sempre descritas no edital.
Qual é a base de cálculo do ITBI em imóvel de leilão?
Na cidade de São Paulo, é o valor pelo qual o imóvel foi arrematado, salvo arbitramento pela Prefeitura, para arrematações formalizadas a partir de 30/03/2023. O STJ, no Tema 1.113, definiu que a base é o valor de mercado da transação, sem vínculo com o valor venal do IPTU. Outras cidades têm regras próprias.
Preciso pagar imposto de renda ao vender o imóvel arrematado?
Se houver ganho de capital, sim. Para pessoa física, a alíquota é de 15% sobre ganhos até R$ 5 milhões, com faixas maiores acima disso. Há isenções, como a venda do imóvel único por até R$ 440 mil e a reaplicação em outro imóvel residencial em 180 dias. Confirme seu caso com um contador.
Conteúdo informativo. Valores e alíquotas variam por município, estado e edital; confirme cada caso.
Referências
- Decreto nº 21.981, de 19 de outubro de 1932 - Regula a profissão de leiloeiro no território da República · Câmara dos Deputados - Legislação Informatizada · acesso em 30/09/2026
- Comissão de leiloeiro deve ser de no mínimo 5% da arrematação · Superior Tribunal de Justiça · 26/07/2023
- Imposto sobre transmissão de bens imóveis (ITBI) - Cálculo do Imposto · Prefeitura de São Paulo - Secretaria da Fazenda · atualizado em 13/01/2026; acesso em 30/09/2026
- STJ define base de cálculo do ITBI em recurso repetitivo · Superior Tribunal de Justiça · 09/03/2022
- Anoreg/SP divulga tabela de Custas e Emolumentos dos Cartórios do Estado de São Paulo para 2026 · Anoreg/SP · 05/01/2026
- Arrematante não responde por tributos anteriores do imóvel · Superior Tribunal de Justiça · 30/10/2024
- Reintegração de posse não exige prévia realização de leilão · Superior Tribunal de Justiça · 05/07/2024
- Alíquotas (Ganhos de Capital) · Receita Federal · atualizado em 04/06/2024; acesso em 30/09/2026
- Operações Não Sujeitas ao Imposto sobre o Ganho de Capital · Receita Federal · atualizado em 28/04/2026; acesso em 30/09/2026
- O ganho de capital na lei 11.196/2005: parte final · IRIB - Instituto de Registro Imobiliário do Brasil · acesso em 30/09/2026